A Freguesia   |   São Martinho

        

O lugar de São Martinho pertencia a Silvares, mas, quando, no ano de 1685, a Barroca, que até aí pertencia à paróquia de Dornelas, se tornou independente, constituindo-se em paróquia, foi nesta integrado.

Vista panorâmica de São Martinho

Há, pois, mais de 300 anos que o lugar de São Martinho pertence à Freguesia e paróquia de Barroca. Vamos ocupar-nos, ainda que muito resumidamente, do lugar de São Martinho.

Fica situado a sudoeste do Fundão, donde dista cerca de 27 quilómetros e pouco mais de 2 quilómetros da sede de Freguesia. (...)

As primeiras casas de habitação dos seus primeiros moradores supõe-se ao que conseguimos saber em conversa com algumas pessoas mais idosas do lugar, que tenham sido erguidas no sitio chamado "As Casas", onde, aliás, se encontram vestígios denunciadores de ali terem existido construções antigas.

Com o rodar dos tempos, a povoação veio a fixar-se numa zona de cota inferior àquela em que se situava a primeira. É, de resto, o local em que ainda hoje se encontra, mas com limites, que se vão alargando de dia para dia.

Sobre a História desta povoação pouco, de concreto e seguro, se sabe, o que é compreensível, dado que não há documentos comprovativos.

Diz, porém, a lenda que os mais antigos íncolas de São Martinho quiseram formar o povo noutro local a que davam o nome de "Chão do Santo", designação que esse lugar preferido jamais perdeu.

Esses remotos antepassados chegaram mesmo a construir nesse local uma capelinha em louvor de São Martinho, que e ainda actualmente o padroeiro da povoação, tendo colocado nesta ermida uma imagem do santo protector.

Este, porém, não gostava da sua nova "morada", pelo que, pela calada da noite, fugia e ia colocar-se num outro local, onde desejava ficar. Como os seus devotos não quisessem contrariá-lo, interpretaram as suas "fugas nocturnas" reveladoras da sua vontade, pelo que decidiram fixar-se no sítio escolhido por São Martinho.

Milagre (?)... ou simples lenda, a verdade é que a povoação de São Martinho ficou nesse lugar e aí se conserva hoje. Ali edificaram uma capela em louvor de São Martinho, onde os habitantes do lugar lhe dedicam um culto muito fervoroso. É tal a devoção que este povo tem a São Martinho que ao referir-se ao seu padroeiro não se limitam a dizer "São Martinho", mas dizem quase sempre "Santo São Martinho", para o distinguirem também do nome da povoação.

Todos os anos, no dia 11 de Novembro ou no domingo mais próximo deste dia, realiza-se aqui, com grande solenidade, a festa em louvor de São Martinho (um oficial romano, convertido do paganismo ao cristianismo, baptizado aos 20 anos, posteriormente, tornado diácono, ordenado presbítero e, finalmente, sagrado bispo de Tours (França). Em certa noite de rigoroso Inverno, andando de ronda, encontrou um pobrezinho, tiritando de frio e semi-nu, condoído, pegando na sua espada, dividiu a sua capa, em duas, e deu uma metade a esse "pobrezinho". A outra lançou-a às próprias costas. Naquela noite, Martinho dormiu melhor que nunca. Jesus Cristo apareceu-lhe vestido com a metade da capa que ele tinha dado ao pobrezinho e disse-lhe: Martinho (ainda, nessa altura, catecúmeno), deu-me este vestuário. "Isto o que ele viu, em sonhos", nessa noite.

Esta festa anual atrai ao lugar de São Martinho numerosos devotos, alguns vindos de longe terras, nomeadamente emigrantes dali naturais e muitos outros das povoações mais próximas.

A propósito, não quero deixar de referir um raro costume em uso nesta localidade, que penso ser quase inédito no nosso País.

Os mordomos ou outros responsáveis da festa procedem (ou costumavam proceder), antes da saída dos andores, pélio, bandeiras e outras insígnias religiosas da capela para, a procissão, a uma singular arrematação entre as pessoas interessadas em os transportar (nalguns casos, para cumprir promessa).

É curioso é que o leiloeiro não hesitava gritar em alta voz:

Quanto dão ou quem mais dá (conforme os casos) pelas pernas dianteiras ou traseiras (entenda-se, braços do andor) do Santo São Martinho? (...)
O produto destes leilões constituía uma apreciável receita da festividade. (...)

São Martinho foi sempre uma terra em que os homens emigraram para diversos países. Em tempos mais antigos, para a Espanha. Depois, para a Venezuela, Canadá, França, Bélgica, Alemanha, Suíça, etc. Nas décadas de 50 e 60, muitos seguiram rumos às nossas antigas colónias, nomeadamente para Angola, Moçambique e S. Tomé e Príncipe. Acrescentarei que há uns anos antes da independência do nosso Ultramar, o decano dos colonos de S. Tomé era um natural de São Martinho - o saudoso José Augusto Gil Ferreira, – administrador e proprietário de algumas Roças. (...)

Na área dos transportes, a povoação tem um ramal de pequena extensão que a liga à estrada nacional n.º 238, que estabelece a ligação para o Fundão e para o Orvalho, por onde circulam todos os dias úteis, desde há muitos anos, carreiras de autocarros, que têm ligação, no Fundão, para a Covilhã e Castelo Branco, e, no Orvalho, para Coimbra, Castelo Branco e Sertã.

Tem telefone, serviço postal, luz eléctrica, água ao domicilio e saneamento. Possui também um cemitério público, cuja inauguração, verificada há já muitos anos, representou para a população um grande beneficio, pois que, anteriormente, as pessoas eram sepultadas no cemitério da sede de Freguesia, que fica situada a cerca de 3 quilómetros o que ocasionava como é óbvio, incómodo de várias ordens.

A bairrista e laboriosa população de São Martinho tem lutado, ao longo dos anos, pelo seu desenvolvimento e progresso, merecendo que as entidades competentes satisfaçam os seus naturais e legítimos anseios.

Há anos, a população de São Martinho pretendeu que o lugar fosse elevado à categoria de Freguesia, mas, após as diligências iniciais, verificou-se que o número de habitantes não era suficiente para que esta natural aspiração fosse satisfeita."

Prof. João Gil Rosa
Texto na íntegra do jornal "O Mineiro" 1990

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Última actualização: 15.05.2010

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