A Freguesia   |   Barroca

        

A povoação de Barroca, sede de Freguesia, dista cerca de 30 quilómetros da sede do concelho e encontra-se a 453 metros de altitude, na margem esquerda do rio Zêzere, do qual está afastada umas escassas dezenas de metros, pelo que bem se pode dizer que se mira nas suas águas. E só é pena que estas se não possam adjectivar de cristalinas, como noutros e saudosos tempos sucedia, devido ao inaceitável facto de se encontrarem poluídas pelas escorrências das lavarias do Cabeço do Pião (Minas da Panasqueira), que tão graves prejuízos têm originado na já débil economia desta zona ribeirinha.

Vista panorâmica de Barroca

Existe dados históricos seguros sobre a data da sua fundação. Sabe-se contudo, que é uma povoação já muito antiga. Pensa-se até que o primitivo aglomerado populacional, que era designado por "Casal de S. Sebastião" (ainda hoje o orago da Freguesia é o mártir S. Sebastião), e se erguia no local denominado por "Valinho do Santo" - que se situa a algumas centenas de metros da actual povoação.

O nome de "Barroca" tem a sua origem numa cova bastante cumprida e profunda, que existe nas proximidades. (...) O Chão da Cova.

Durante vários anos a Freguesia de Bodelhão (desde 18 de Agosto de 1928 que é designada por Aldeia de S. Francisco de Assis, por, segundo reza o Decreto nº 15868, este nome mais se coadunar com o sentir dos seus habitantes e mais ajustar ainda à tradição), andou anexa à Barroca, e esta chamava-se, então, Barroca e Bodelhão.

Por decreto e 7 de Setembro de 1895, foi anexado, para efeitos administrativos, à Freguesia de Barroca o lugar do Alqueidão, transferido da Freguesia de Dornelas do Zêzere, concelho de Pampilhosa da Serra e bispado de Coimbra, à qual ainda hoje pertence canonicamente.

Este mesmo decreto anexou à Freguesia do Ourondo, do concelho da Covilhã, a Freguesia do Bodelhão, deixando esta, portanto, de estar anexada à Barroca. A partir desta data, a Freguesia de Barroca e Bodelhão passou a denominar-se apenas por Barroca, que é, aliás, a designação oficial que ainda mantém.

Lugares e Bairros que formam a Freguesia da Barroca

A Freguesia da Barroca é formada por 3 lugares: Barroca (Sede), Alqueidão e São Martinho.

A povoação da Barroca, que se ergue sobre um mamelão, é composta também por diversos pequenos aglomerados de casas, pequenos bairros periféricos, (...) nomeadamente o da Corte do Sobreiro, o da Várzea, o da Cerejeira, o da Fábrica e, mais recentemente os das Ruas dos Pomares e do Anjo da Guarda.

Características Orográficas

Os horizontes desta povoação são muito limitados devido à existência de um verdadeiro cinto de elevações de terreno, formado pelo Cabeço do Pião a Norte; a Sul pela Serra de Bogas; a Nascente pelo Monte do Vale da Laje e, mais à distância, a Serra do Carvalhal ou dos Boxinos, a Poente o Monte da Maria Boa e do Canal, e um tanto mais ao longe, a Serra do Colmeal. Há ainda o Cabeço da Várzea e da Senhora da Rocha."

Textos do jornal “O Mineiro”

"Nomes de alguns barrocenses que por seus feitos e obras são credores de uma referência especial (...)

Bernardino Roque: Nasceu no princípio do séc. XIX, foi um latinista distinto. Desconhecemos a data precisa em que teria falecido.

Manuel Rodrigues da Fonseca: Não sabemos a data do seu nascimento. Foi doutorado em Cânones (Faculdade daquele tempo). Faleceu por volta do ano de 1834.

Manuel dos Santos: Nasceu no ano de 1839. Foi, (...) o precursor, (...), da exploração de volfrâmio e de outros minérios que mais tarde veio a ser feita, em molde já organizados e sistematizados, pela Empresa Beralt Tin & Wolfram Portugal.

Reverendo Doutor Manuel Roque: Não conhecemos a data do seu nascimento. Era formado em leis, sendo considerado um dos mais esclarecidos jurisconsultos do seu tempo.

José Simão Dias: Desconhecemos a data do seu nascimento. Foi cónego da Sé da Guarda. Era um homem dotado de grande inteligência e possuidor de uma invulgar e invejável memória. Sabia muito bem não só o latim como ainda o grego e várias línguas vivas. Cegou ainda novo, pois tinha apenas 40 anos, mas, apesar disso, continuou a celebrar a missa, sendo-lhe apenas preciso que alguém começasse as primeiras palavras das orações principais. (...) Veio a falecer no dia 7 de Fevereiro de 1842.

José Inácio Cardoso: Nasceu no ano de 1806, tendo deixado alguns escritos, hoje raros, especialmente um deles, que se intitula "Orologia da Gardunha". (...) Deixou também uma notícia inédita, relativa às antiguidades de Castelo Novo, a qual estava em poder de seu filho, Sr. António Ignácio Cardoso. Faleceu em Atalaia do Campo (Alpedrinha) no dia 31 de Agosto de 1878.

Doutor Luís Gonzaga Reis Torgal: Nasceu a 18 de Julho de 1851, em Barroca, onde passou os primeiros tempos da sua vida. Após ter frequentado a Universidade de Coimbra, da qual foi um dos seus mais distintos alunos, ali se formou em Direito, no ano de 1878. Neste mesmo ano abriu banca de advogado na, então vila do Fundão, hoje cidade, tendo sido eleito Vice-Presidente do seu Município. (...) Durante um dos seus mandatos como deputado pelo círculo de Castelo Branco, conseguiu o prolongamento da estrada de Silvares para a Barroca, numa extensão de cerca de 10 quilómetros, o que nesse tempo representava uma grande conquista. O Dr. Luís Gonzaga dos Reis Torgal faleceu em 4 de Agosto de 1914, na cidade de Lisboa, com a idade de 63 anos. A Junta de Freguesia de Barroca deliberou, em fins de 1959, dar a uma rua desta localidade o nome do Dr. Luís Gonzaga dos Reis Torgal, prestando, assim, a sua devida homenagem à memória de um dos seus mais ilustres filhos.

António Rodrigues Fabião: Nasceu em Barroca no dia 22 de Março de 1868 e faleceu em Silvares (Fundão) no dia 27 de Dezembro de 1947. Carácter franco e leal, foi sempre querido e respeitado por todos, mas duma maneira especial e carinhosa pelos mais carenciados, pelos quais distribuía, em esmolas e trabalho, grande parte dos seus abundantes recursos. Pessoa inteligente e culta, era dotado de uma prodigiosa memória, tendo sempre uma resposta pronta e adequada, por vezes incisiva, para cada circunstância. Apesar de sofrer de uma incurável doença visual, que o impedia de ler, conhecia grande parte das nossas obras literárias e várias de autores estrangeiros, que lhe eram lidas pela sua dedicadíssima filha, Srª D. Lucília, sendo frequente citar, de memória, com apreciável fidelidade, passagens expressivas dessas obras. (...) Grande devoto de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, foi um dos grandes dinamizadores da construção da airosa capela que se ergue no Monte da várzea. Em 15 de Agosto de 1968, a população da Barroca prestou uma significativa e expressiva homenagem à sua saudosa memória, por motivo da passagem do 1º centenário, que ocorrera nesse ano.

Padre Hermínio Fernandes Martins: Nasceu em Barroca no ano de 1903 e faleceu, vítima de um tumor cerebral, no dia 27 de Março de 1972, em Unhais da Serra, com a idade de 69 anos. Era filho de António Fernandes Martins e de Maria Nunes Fernandes. Frequentou a escola primária desta localidade, de que foi um aluno sempre aplicado e de saliente compostura revelando já nessa altura uma invulgar aptidão para as actividades manuais, às quais destinava grande parte dos seus tempos livres. Deixou na escola trabalhos de artesanato que o arquivo guardava e serviam de modelo e motivação a muitas gerações de alunos, pela perfeição, sentido artístico e espírito criativo que evidenciavam. Lembro que dessa preciosa colecção constava um arado (...) que só a mão de um artista poderia produzir. Construiu também um pião de razoável tamanho que no seu rodopiar emitia uns sons que se assemelhavam aos de um órgão e se ouviam em grande parte da aldeia. (...) Após a conclusão dos estudos primários foi para o seminário, tendo cantado a sua Missa Nova nesta localidade.

Padre Venceslau Gonçalo de Almeida Gil: Nasceu em Barroca no dia 30 de Abril de 1917 e faleceu, no Hospital Distrital de Évora, para onde fora transportado, de urgência, no dia 20 de Outubro de 1976, com 59 anos. Era filho de Alfredo Gil e de Maria dos Santos. Ainda criança, ficou órfão de mãe, sendo criado por sua avó materna e por uma tia, com quem o pai viera a casar, em segundas núpcias. Foi aluno distinto da Escola local, tendo, depois de feito o exame do 2º grau, entrar para o seminário arquidiocesano de Évora, onde se evidenciou pelas suas invulgares qualidades de inteligência e aplicação ao estudo. Foi ordenado sacerdote no dia 31 de Dezembro de 1939, em Vila Viçosa, pelo então arcebispo de Évora, D. Manuel Mendes da Conceição Santos. A 14 de Janeiro de 1940 cantou a sua Missa Nova na Igreja Paroquial desta sua aldeia natal. (...)

Doutor Joaquim dos Reis Torgal: Nasceu no dia 1 de Março de 1862. Era filho de Gonçalo José dos reis Torgal e de Maria Ana Roque e irmão do Dr. Luís Gonzaga dos Reis Torgal. Fez os seus primeiros estudos no antigo e afamado Colégio dos Jesuítas, de S. Fiel, tendo-se revelado logo um aluno aplicado e de grandes possibilidades intelectuais, o que levou os seus superiores a sugerirem-lhe a sua entrada na Ordem, após a conclusão dos seus estudos. Mas tal não se verificou porquanto veio a formar-se em Direito pela Universidade de Coimbra, no ano de 1886, tendo a idade de 24 anos. (...) Faleceu em Lisboa, com 88 anos incompletos, no dia 6 de Janeiro de 1950. Os seus restos mortais repousam em Barroca no jazigo de Família.

Juiz Desembargador Doutor António dos Reis Torgal Roque: Nasceu em 1867 e foram os seus pais Gonçalo José dos Reis Torgal e Maria Ana Roque. Concluiu a sua formatura em Direito no ano de 1891, tendo sido figura de assinalado relevo na magistratura, nela fazendo brilhante carreira, nomeadamente em Cabo Verde, Moçambique e no Estado da Índia. Foi por diversas vezes louvado pelo seu zelo, dedicação e competência. Passou à situação de reforma no ano de 1937. Faleceu em Lisboa, com 89 anos. Os seus restos mortais repousam no cemitério público de Barroca, em jazigo de família, junto dos seus irmãos, Drs. Luís Gonzaga dos Reis Torgal e Joaquim dos Reis Torgal.

Manuel José Gonçalves dos Santos Gascão: Era formado em Medicina e exerceu a clínica, com grande eficiência, na cidade da Covilhã.

Poeta Augusto Martins Cardoso de Figueiredo: Nasceu na Barroca, no dia 1 de Setembro de 1878. Era filho do professor local (o 1º que leccionou nesta localidade) Domingos Lopes Martins e de D. Maria Emília Cardoso Borges de Figueiredo. Do pai herdara a rectidão e firmeza de carácter e de mãe aquela bondade tão natural, espontânea e simples que encantava e seduzia logo aos primeiros contactos. Fez os estudos primários em Barroca, como aluno de seu pai, após o que foi para Castelo Branco."

Maria Natália dos Reis Torgal: Nasceu em Lisboa no ano de 1887. Filha de Elisa Diogo Reis Torgal e do conselheiro Dr. Luís Gonzaga dos Reis Torgal, natural da Freguesia da Barroca, concelho do Fundão, jurisconsulto ilustre, deputado às Cortes de Leiria em 1884 e 1890, Par do Reino, Juiz do Tribunal Internacional de Milão, Presidente da Câmara do Fundão, sobrinha do Dr. Joaquim dos Reis Torgal, administrador do concelho de Estremoz, Dr. António dos Reis Torgal juiz em Goa - Índia e Desembargador do Tribunal de Relação em Lisboa, em 1881 alcançou grande projecção nos meandros da lisboeta e Manuel dos Reis Torgal Solicitador. Senhora de grande altruísmo, amiga dos pobres e da Barroca, terra onde todos os anos vinha passar uns apetecidos dias de férias na casa que possuía e que à sua morte legou à Comissão Fabriqueira da Igreja assim como todas as propriedades que cá possuía e que hoje são pertença da Junta de Freguesia e da Respectiva Comissão Fabriqueira. Em Lisboa e nesta terra, à sua morte deixou legados a todos os empregados domésticos que a serviram durante vários anos, assim como a pessoas amigas.

Prof. João Gil Rosa
Texto na íntegra do jornal "O Mineiro" 1990

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Última actualização: 26.02.2011

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