A Freguesia   |   Alqueidão

        

A localidade de Alqueidão fica a cerca de dois quilómetros e meio a sudoeste da sede de Freguesia, situando-se numa espécie de península, na margem esquerda do rio Zêzere, formada por um acentuado meandro do rio.

Vista panorâmica de Alqueidão

Em frente, na margem direita, tem a povoação de Dornelas do Zêzere, já do concelho da Pampilhosa da Serra, a cuja paróquia pertence eclesiásticamente.

Pelo censo de 1960, tinha 227 habitantes e 58 fogos. Com o êxodo rural, que se tem verificado e agudizado nas últimas décadas, a sua população tem sofrido apreciável decréscimo.

O topónimo "Alqueidão" é frequente em Portugal (...), parece provir do árabe "Al Kadim", que significa "passagem". É, assim, natural que o sítio fosse um lugar de passagem dos mouros, quando estes ocuparam, há muitos séculos, esta região. Aliás, ficou na memória do povo a tradição da presença dos árabes nesta zona, concretizada, através de histórias e lendas contadas de geração em geração. (...)

A Sul da povoação fica um grande monte, chamado o "Cabeço do Vale Pereiro", onde há grandes rochedos, conhecidos por "Penedos da Igreja". Diz o povo que uma concavidade formada por esses penedos servia de templo aos mouros, donde, por isso, lhes teria vindo o nome. (...)

Diz-se que os árabes cavaram, ao longo do rio, um fosso, que passava pela povoação e pelo qual conduziam as águas que utilizavam para a pesquisa e "apuramento" do ouro, que ainda hoje se encontra, embora em percentagem reduzida, no já referido rio.

Ao fundo do "Cabeço do Vale do Pereiro", num local chamado "Penedo do Barroco", há, cavados na rocha, vestígios dessa "levada", o que, de certo modo, confirma esta tradição. (...)

A população é de reduzidos ou medianos recursos económicos, embora nos últimos tempos a sua situação tenha melhorado bastante, em virtude da emigração, o que, de resto, se nota até na construção de algumas moradias ou vivendas de estilo "luso - europeu", dando à povoação um certo ar de modernidade, mas, por outro lado, retirando-lhe aquela feição típica de outrora.

Esse surto emigratório começou a verificar-se, após a Guerra de 1939-1945, com a saída, inicialmente, dos homens e, posteriormente, de várias famílias. Os seus destinos eram, em regra, para as nossas antigas colónias de Angola e Moçambique e países europeus, com predominância para a França.

Anteriormente, a maioria da população válida empregava-se nas Minas da Panasqueira ou no cultivo das terras, próprias ou de outros. (...)

O povo Alqueidense usa, por vezes, expressões muito suas e pitorescas, mais comuns e vulgares nas pessoas mais idosas.

Entretanto, com o alargamento da escolaridade obrigatória, a influência dos meios de comunicação social e a facilidade de mobilidade das pessoas, vários desses castiços dizeres vão deixando de ser utilizados, sobretudo pelas camadas mais jovens da população.

Vamos referir algumas, indicando o respectivo significado:

cantés eu<<<  significa  >>>porquanto eu
quita<<<  significa  >>>escusa
nino<<<  significa  >>>menino
aguintar<<<  significa  >>>atirar fora
azado<<<  significa  >>>bonito, jeitoso
mal azado<<<  significa  >>>feio, desajeitado
nada não<<<  significa  >>>não (resposta negativa)
ó pialém<<<  significa  >>>por aí além
inzoneiro<<<  significa  >>>impostor, mexeriqueiro
asagalhado<<<  significa  >>>agasalhado
bilboreta<<<  significa  >>>borboleta
Catapolina<<<  significa  >>>Capitolina
faganhoto<<<  significa  >>>gafanhoto
áuga e áugua<<<  significa  >>>Água
buer e boer<<<  significa  >>>beber
currel<<<  significa  >>>curral
brinquer<<<  significa  >>>brincar

É um povo crente, ordeiro e trabalhador. Existe nesta povoação uma pequena capela, dedicada a S. Lourenço, padroeiro do lugar. (...)

Venera-se também nesta capela a imagem de Nossa Senhora da Nazaré, na qual o artista não esqueceu fazer alusão ao episódio histórico de D. Fuas Roupinho, que foi o 1º Almirante português, em honra da qual costuma o bom povo Alqueidense fazer todos os anos uma festa.

Porém, a festividade principal deste lugar é feita em louvor do seu Padroeiro – o mártir S. Lourenço – a qual, depois da de S. Pedro e S. Paulo, não tem a liturgia romana outra que a ultrapasse em esplendor."

Prof. João Gil Rosa
Texto na íntegra do jornal "O Mineiro" 1990

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Última actualização: 26.02.2011

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